Dois trechos do livro que eu li esse fim de semana...
Garcia Márques manda muito bem!
"Um gato, respondi. Ele quis ver. Destapei a cesta com toda precaução com medo de que o gato escapasse, mas um agente quis ver se havia alguma outra coisa no fundo, e o gato esticou-lhe as garras. O oficial se interpôs. É uma jóia de angorá, disse. Acariciou-o enquanto murmurava alguma coisa, e o gato não o agrediu mas também não lhe deu a menor confiança. Quantos anos tem?, perguntou. Não sei, respondi, acabo de ganhar de presente. Estou perguntando porque dá para ver que é muito velho, uns dez anos, talvez. Quis perguntar como é que sabia, e muitas outras coisas, mas a despeito de suas boas maneiras e de sua fala floreada não me sentia com estômago para falar com ele. Acho que é um gato abandonado que passou por poucas e boas, falou. Observe-o, não o acostume ao senhor, mas, ao contrário, o senhor que se acostume a ele, e deixe-o em paz, até ganhar sua confiança. Fechou a tampa da cesta e me perguntou: O senhor trabalha em quê? Sou jornalista. Desde quando? Faz um século, respondi. Não duvido, disse ele. Apertou a minha mão e se despediu com uma frase que podia ser um bom conselho ou uma ameaça:
— Vá com muito cuidado."
"Eu seguia suas artimanhas para me familiarizar com seus hábitos originais, mas não dei com seus esconderijos secretos, seus lugares de repouso, as causas de seus humores volúveis. Quis ensiná-lo a comer na hora certa, a usar a caixinha de areia no terraço, a não subir na minha cama enquanto eu dormia nem a fuçar os alimentos na mesa, e não consegui fazer com que entendesse que a casa era dele por direito adquirido e não como um butim de guerra. Acabei deixando que fizesse o que bem entendesse."
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ORIGAMI
Há 8 anos
