quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Samuel Neves

Três poemas do, talvez, maior poeta que eu já conheci: Samuel Neves.
Achei-os por acaso, jogados entre as pastas do meu computador...
Seguem:


sabe,
eu sei que a Terra é a mesma bola oval
redonda de injustiças
e camisas insuportáveis
de força e opressão

sei também que os nossos espaços públicos
estão cada vez mais caros
e os corpos privados de tudo
mais e mais sem valor

eu sei que as mulheres continuam sendo
as esposas respeitáveis
ou as putas sem Cristo
sem hímem ou aquilo
sem respeito e sem nada

sei que a juventude deveria ser
um exército de sonhadores
cheios de ideais e aquarelas
mas que a nossa é um "freak-show"
de produtos em série

e eu sei que as vezes é difícil
agüentar tudo isso
mas sei lá ...
ainda tem muita gente boa
e tanto lugar bonito
e o que eu sei ainda é tão pouco
que não custa nada imaginar
um mundo diferente

e sabe,
eu sei que não basta
- e, acredite,
eu não quero que baste -
mas agora
mesmo que seja só agora
eu queria pôr abaixo esse muro
cortar esse arame farpado que nos separa
e dizer te invadindo
que se o que sinto, bastasse
você seria muito feliz

07-04-06

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contigo no quarto
eu danço
eu paro
e me calo
eu olho mais claro
impossível
e digo calado
ao teu lado
ou em cima
ou embaixo
me perco
e te acho
com a boca
e com os dedos
ali
e nos seios
me movo
e te queimo
com o fogo
de macho
e desejo
me movo
de novo
em transe
buscando
o cansaço
molhado
cheirando a suór
e prazer

07-04-06

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i

teus olhares já não são armas que ferem
teus delírios são sintomas dessa febre
que criaste quando o mundo era saudável
aos teus dezessete anos de mistérios
Deus catando entre mil coisas caídas
algum motivo, esperança ou consolo

ii

os teus dias já não são aves que voam
antes répteis dormentes que se arrastam
entre braços sujos de mendigos perfumados
com fragrâncias de mentira e flagrantes de inferno
Deus caído entre mil coisas catadas
de números e nomes, qualquer pessoa e ninguém

29-06-06.


Grande Samuca....
Ai, quantas dores causaste ao teu caçador...